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O cântico em jeito de anedota (ou o contrário)

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O nosso personagem de empréstimo possuía um singular nome próprio - era singular mas era dele, como qualquer coisa comprada ou herdada - e esse nome era Borsday, um nome com uma sonoridade eslava ou germânica e com a terminação musical do nome de um súbdito de Sua Majestade a passear até ao farol com Virginia Woolf sob um chapéu de sol. Borsday mantinha há longos anos uma relação tranquila com uma jovem da sua circunscrição e um dia marcaram data para o casamento. Acordaram que ambos escreveriam um texto seu para lerem um ao outro diante da família e dos convidados. A noiva alinhavou o dela a partir de frases de diálogos de filmes melosos da Hallmark que ela via e revia em plataformas de streaming, Borsday não lhe ficou atrás e a composição dele era uma fusão caótica de versos que se lembrava de músicas tradicionais escocesas onde se cantava as mulheres peitudas de coxas gordas e a cerveja dos pubs cheios de fumo de tabaco. No dia da cerimónia e diante da mesa da consagração, a noiva q...

Natal [história escrita a 2 mãos com a MARIA DOS ANJOS CASTANHEIRA CALADO]

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Ainda a tarde se delongava nas últimas e deliciadas horas de claridade de Dezembro quando o jovem pároco ouviu bater à sua porta. Pousou o candeeiro de petróleo que estava prestes a acender e apressou-se a abri-la. No degrau de calcário da entrada estavam dois paroquianos seus, de olhar grave e mãos de dedos entrelaçados sobre as barrigas salientes. Eram os Antunes da Teresa, dois irmãos, acólitos e juízes de festa, tacticamente complicados a abordar qualquer assunto relativo à paróquia ou aos paroquianos. - Hoje é noite de Natal, senhor nosso padre - começou o mais novo com uma voz monocórdica - é tradição e tradição de respeito e reverência que o senhor padre jante connosco no salão da coletividade, temos anho, galinha e peru, bolos feitos com muitos ovos e brindeiras da senhora Dona Helena da Serra. Pode o senhor nosso padre não o desejar, mas terá de o explicar porque o recusa quando der a Santa Missa. O Padre Vicente suspirou de forma discreta e foi vestir um casaco felpudo ...

Procastinação [curta]

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Enésimo enxaguou a esfregona no balde a admirar um pouco aparvalhado a forma como o líquido avermelhado escorria para o fundo do balde. Vermelho como sangue. Sangue como o que coloria o chão de mármore em quase toda a extensão do adorável quartinho de criança. - Temos de fazer alguma coisa - opinou desalentado, a tentar obter uma reação da mulher - eu sei que ela é tua mãe mas temos mesmo de fazer alguma coisa. Undécima, a mulher, sacudiu os ombros como se aligeirasse o peso daquelas palavras sobre si. - Tenta perceber, poxa! É minha mãe e já dobrou a casa dos oitenta. Quando eu era pequena ela aguentava toda a pancada que o meu pai lhe dava só para lhe sonegar algumas moedas para nos comprar comida quando ela própria parecia um saco de ossos, a pele da cara colada ao crânio e uns dedos tão magros que pareciam caudas de ratinhos como naquela história de crianças. Enésimo parou de esfregar o chão. Agora que ela começara a falar, sentir-se-ia ofendida se não lhe desse atenção. - Anos mai...

A consulente

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                A senhora moveu-se nervosamente na cadeira, estava irrequieta e mais a cada instante enquanto do outro lado da secretária o médico relia uma e outra vez as folhas com os seus exames que retirara de um envelope selado do laboratório. Ela levantou a mão direita e ajeitou sobre os ombros o casaco comprido que trazia sobre as costas.                 - Estou mal, Doutor? Há algum problema comigo?                 Ele fitou-o com uma encenada surpresa como se ela tivesse dito uma coisa absurda mas, ao mesmo tempo, talvez sentisse um pouco de alívio por ela ter iniciado o diálogo, o caminho que os dois teriam de percorrer a par.                 - As coisas não estão famosas e vo...

Croniqueta sobre os dragões malignos da ilhota de Eigg Galmisdale

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  Frei Geovildo, prelado-mor do nosso Mosteiro do Santo Lenho, encarregou-me a mim, monge-copista da livraria do Mosteiro, de anotar tudo o que presenciei desde os primeiros sinais de dragões no nosso recanto da Hibernia. Ainda antes de os vermos pela primeira vez, os barqueiros e os pescadores contaram que os dragões já haviam causado a destruição na costa diante da nossa ilha e apenas um ténue estreito sem rochedos nem ventos indómitos nos separavam desses lugares ora devastados. Em Kilchoan, os dragões entraram nas casas das pessoas, destruindo e matando quem queriam, os seus hálitos pestilentos insinuavam-se pelas narinas e boca dos campesinos, que sucumbiam à dor enquanto os seus órgãos eram calcinados por aquele sopro maligno; em Glenuig e Mallaig, os dragões não quiseram saber das pessoas, mas incendiaram os seus celeiros de cereais secos, devoraram os frutos nas árvores, e destruíram a carne conservada em gelo nos subterrâneos em pedra das suas granjas. Quando os avista...

Quando a ampla vida se conta por um instante maior do que ela

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  Isilda era como um pequeno anjo de luz. Eu e ela devíamos ter na época uns onze ou doze anos, ela era linda e na confusão de sentimentos inclassificáveis que nos assolam por esses anos turbulentos, sei que gostava mais dela do que de qualquer outra coisa de que me possa lembrar, como era perfeita a tez escura da sua pele, o seu sorriso vivo e o risinho nervoso e musical, e os seus olhos castanhos esverdeados que me adoçavam a alma quando eu os fixava. Bate frágil o coração dos novos como a da cria do pássaro na berma do ninho antes do seu primeiro voo, o coração bate no peito e na garganta, enche de ar as nossas palavras aladas e metamorfoseia um simples gesto num rito sagrado e denso de significado. Na ida ou no regresso da escola, por vezes enchia-me de coragem e sentava-me ao seu lado no autocarro cheio de gente e de cheiros e sons mesclados, fortuitamente dizíamos qualquer coisa um ao outro, outras vezes fazíamos a viagem a olhar para o exterior, para a paisagem africana de a...

Efeito borboleteante

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Quando nasceu, Edgar não chorou como muitas outras crianças. A parteira pegou-lhe pelas pernas e deu-lhe uma palmadas ligeiras no rabo, mas Edgar (ele ainda não tinha nome por então) não chorou, apenas moveu ligeiramente a cabeça pequenita como a manifestar que havia algo que não estava correcto. Limparam-no e aninharam-no no colo da mãe, mas Edgar não chorou nem sentiu nada, sentia-se distante do mundo e das pessoas, da voz e dos beijos da mãe emocionada, do bafo do pai a tabaco e a vinho rasca que lhe queimava a cara quando ele lhe falava junto a si. Os anos passaram e Edgar permaneceu uma criança séria e sisuda como um juiz sóbrio e velho. Não havia lugar para o riso ou para o pranto na sua alma e cresceu sério como se tudo fosse sério e inadiável e tivesse uma função imediata que não poderia ser esquecida. Se uma borboleta esvoaçasse sobre a sua cabeça, não era porque voasse por alegria ou prazer mas porque procurava comida ou porque fugia de quem a queria comer, não havia nada cas...