A consulente
A senhora moveu-se nervosamente na cadeira, estava irrequieta e mais a cada instante enquanto do outro lado da secretária o médico relia uma e outra vez as folhas com os seus exames que retirara de um envelope selado do laboratório. Ela levantou a mão direita e ajeitou sobre os ombros o casaco comprido que trazia sobre as costas.
- Estou mal, Doutor? Há algum problema comigo?
Ele fitou-o com uma encenada surpresa como se ela tivesse dito uma coisa absurda mas, ao mesmo tempo, talvez sentisse um pouco de alívio por ela ter iniciado o diálogo, o caminho que os dois teriam de percorrer a par.
- As coisas não estão famosas e você não pode ter deixado de notar isso...
- O que é que eu tenho? Alguma doença terminal? – e como ele não respondeu, ela elaborou com o coração aos pulos – quanto tempo eu tenho de vida, Doutor?
Ele levantou as mãos no ar com os dedos para cima e moveu-os de forma equívoca e patética como uma marioneta movida por fios invisíveis.
- As coisas não são assim preto no branco, não há uma etiqueta da loja com o código de barras e o prazo de validade, as pessoas não expiram assim...
- Então como expiram? Somos cadáveres sempre adiados, para parafrasear o poeta, mas um dia chega a hora, não é?
Ele levantou-se da cadeira e aproximou-se da janela, de perfil para ela. Olhava a rua lá em baixo, os carros e as pessoas, figuras sôfregas e inquietas. Uma enfermeira bateu ao de leve na porta do gabinete e entrou de mansinho para pousar uns papéis na secretária e voltar a sair.
- Eu gostava de ter sido matemático – voltou o médico – a matemática é uma bênção de Deus ou do Universo ou do que quer que a gente acredite, não há evasivas, palavras dúbias, teatros, os números e as fórmulas lançam a luz sobre o desconhecido e avançam na descoberta do universo exterior e dos mundos infra-atómicos. A medicina, infelizmente, não é assim, e quando se trata de certezas ou de respostas exactas, não progredimos nada desde a pitonisa ou dos xamãs do Paleolítico. Quanto à senhora, apenas posso ler os sintomas e dizer-lhe, mais do que prever, o que talvez possa ocorrer a seguir, se eu estiver correcto e se a evolução do problema estiver de acordo com o modelo imaginado.
- Então diga-me de uma vez, Doutor!
- A senhora não vai morrer, pelo menos não para já e não no sentido clínico e prosaico da palavra. Os dois nódulos que me mostrou há meses nas suas omoplatas não tem explicação na medicina actual, nenhum médico aprende isso no Ensino Superior ou nos compêndios de medicina, é preciso recuar até aos bons romanos e a Cornélio Celso para encontrarmos o seu diagnóstico – Aegrotatio Alis. Na nossa linguagem vulgar podemos traduzir imperfeitamente por doença das asas, sintetizando, a senhora está a criar duas asas nas suas omoplatas, ligadas por terminações nervosas ao seu sistema nervoso central e à glândula pineal.
A consulente sentiu-se a ficar sem respiração e com o coração a bater acelerado.
- Beba um pouco dessa água – pediu o médico – não a ajuda em nada se ceder a um ataque de pânico.
Esperou uns momentos enquanto ela se recompunha e só então prosseguiu.
- Não há registos clínicos, pelo menos oficiais, da Aegrogatio Alis nos tempos mais recentes e a única referência que lhe conheço na literatura médica foi escrita por um médico de Viena em meados do século XIX numa publicação que marcou o seu completo ostracismo da comunidade médica de então. Eu próprio hesito se farei algum relatório disto ou alguma singela menção, o que me mereceria apenas descrédito e troça dos meus pares, mas seguirei atentamente o seu caso de uma forma próxima e irei acompanhá-la em todas as fases do processo.
- E que fases são essas, Doutor? Continua a assustar-me!
- O panorama é um pouco intimidante, até um pouco assustador, mesmo para mim, mas devemos tentar manter alguma serenidade e estoicismo porque poderia ser uma doença muito mais grave e devastadora. E dito isto, falarei dos tempos que se avizinham com uma prospectiva baseada nos trabalhos do dito médico de Viena. O seu corpo irá sofrer uma metamorfose lenta e creio que quase indolora; ao longo do processo, enquanto as suas asas continuam a crescer até estarem capazes de sustentar o seu peso nos ares, os seus ossos ficarão ao mesmo tempo mais ocos e leves, mas sem perder os seus atributos e funções. No caso de Viena era também uma paciente e levou um ano inteiro até ser capaz de se erguer no ar com o ímpeto das suas asas, o médico convidou outros científicos para assistir ao fenómeno mas ninguém compareceu e o médico caiu em desgraça e acabou os seus dias como um modesto sangrador numa aldeia junto à floresta da Boémia.
- E porque é que acredita no que esse médico escreveu e o que aconteceu à mulher com asas?
- O relatório do médico passaria por uma fábula como a das sereias e tritões, mas foi escrito com muita minúcia e todos os detalhes que ele registou se repetem no seu caso, pelo que lhe tenho de dar o devido crédito, ainda que de uma forma condicional. Sobre a mulher não lhe sei adiantar muito, o médico escreveu que assistiu muitas vezes aos seus voos sobre o campo verdejantes e o exílio do médico junto à floresta da Boémia sugere-me que ela tenha ficado também aí a viver, longe dos olhares suspeitos e maldosos dos ignorantes. Nós vivemos no século vinte e um mas a mentalidade e abertura de espírito de muitas pessoas não é melhor do que a que florescia nas épocas de caça às bruxas, pelo que recomendo à senhora que, se tiver alguma possibilidade de o fazer, se isole nalgum lugar onde esteja mais resguardada dos olhares e dos comentários das pessoas porque em tempos muito próximos esse casaco sobre as costas não dissimulará o crescimento das suas asas.
Ela pareceu pensar um pouco e logo as suas palavras traduziram o que lhe ia no espírito.
- Há de facto uma propriedade isolada no Alentejo que é do meu marido onde podemos ficar a viver, é propriedade rústica que fica afastado de qualquer povoação e eu posso residir aí com ele e ele desempenhará a minha ligação com o resto do mundo.
- Óptimo, apesar de não ser muito próximo, eu irei visitá-la sempre que puder e levarei os medicamentos que necessitar, e lá farei as colheitas para eventuais análises que tenham de ser realizadas.
- E porquê análises? O que procura ou o que é que encontrou nos meus exames?
O médico, que se havia sentado de novo, voltou a pegar nas folhas, perfurou-as de lado como se as fosse arquivar naquele momento e depois de segundos que pareceram horas para ela ergueu as pupilas com os reflexos envidraçados dos óculos.
- No caso de Viena, como no seu, apareceram vestígios ténues no sangue de um metal de símbolo químico Au.
- Ouro?! Eu faço palavras cruzadas, Doutor, sei que esse é o símbolo químico do ouro – o que é que isso significa, Doutor? Por que raio é que eu tenho ouro a correr-me nas veias?
- Não lhe sei dizer, o caso de Viena apenas o menciona e não encontro nada em Cornélio Celso. Julgo ou espero que a quantidade de ouro se mantenha em condições apenas vestigiais sem prejuízo para a saúde do organismo, mas não posso deixar de me lembrar que na arte do gótico e do Renascimento, as asas dos anjos eram representadas nas pinturas a saírem do corpo numas auréolas ou borlas douradas, mas isso podem ser apenas fantasias ou elucubrações minhas suscitadas pela invulgaridade deste caso. Enfim, talvez esse ouro não permaneça no organismo mas se concentre na pele em volta das asas, o que seria uma evolução positiva, de certa forma. Apenas lhe peço que enfrente tudo isto com o pragmatismo que lhe for possível, e que me comunique qualquer sintoma ou dor que apareça. Depois de sair daqui recolha à sua casa e tente descansar um pouco e pensar um pouco em tudo isto.
A paciente levantou-se com um ar absorto e preocupado e apertou a mão que o médico lhe estendia. Mesmo com as asas a crescerem-lhe nas costas, nunca sentira sobre si o imenso peso do ar como naquele momento.
- Não se preocupe, quando sair daqui vou correr a voar para casa – comentou com alguma amargura – obrigado por tudo, Doutor, pelo diagnóstico e pela lição de História e de latim. Você é um anjo!

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