POLARIS (Para a Angela)
“Como é que se começa uma história?” – perguntou-lhe o neto, falando consigo mesmo diante da folha lívida e inane pousada na mesa. A avó saiu da mesa, tentando não perturbar a sua concentração, de caminho, pegou pela asa da caneca vazia de café de tacho e rumou à cozinha deixando no ar o rasto sinuoso daquele aroma persistente e encorpado de café em pó e artes do fogo. Pousou a caneca no lava-louça, deu uma espreitadela à sala de jantar onde o neto tinha a cabeça pousada entre as duas mãos abertas, e saiu discretamente de casa, transportando com ela um pouco de pão e umas aparas do peito de peru que assara para o jantar. Sentou-se na berma do alpendre, junto aos degraus de madeira da escada, e pousou num dos degraus a comida que trouxera. Não teve de esperar muito, admirou os arbustos a ramejar diante de si a trair a presença que se avizinhava, até a ver, a ursa esguia de pêlo luzidio e focinho um pouco alongado. A ursa aproximou-se mansamente, olhando-a a espaços como se estives...