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Efeito borboleteante

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Quando nasceu, Edgar não chorou como muitas outras crianças. A parteira pegou-lhe pelas pernas e deu-lhe uma palmadas ligeiras no rabo, mas Edgar (ele ainda não tinha nome por então) não chorou, apenas moveu ligeiramente a cabeça pequenita como a manifestar que havia algo que não estava correcto. Limparam-no e aninharam-no no colo da mãe, mas Edgar não chorou nem sentiu nada, sentia-se distante do mundo e das pessoas, da voz e dos beijos da mãe emocionada, do bafo do pai a tabaco e a vinho rasca que lhe queimava a cara quando ele lhe falava junto a si. Os anos passaram e Edgar permaneceu uma criança séria e sisuda como um juiz sóbrio e velho. Não havia lugar para o riso ou para o pranto na sua alma e cresceu sério como se tudo fosse sério e inadiável e tivesse uma função imediata que não poderia ser esquecida. Se uma borboleta esvoaçasse sobre a sua cabeça, não era porque voasse por alegria ou prazer mas porque procurava comida ou porque fugia de quem a queria comer, não havia nada cas...

A senhora e o viúvo

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  A senhora Os corvos marinhos mantêm-se pousados nas rochas quando o mau tempo se avizinha. Isso era algo que Nazino sabia desde criança. Admirou aquelas criaturas de bicos fortes, firmemente ancorados nas rochas altas e com passos leves levou para dentro do estábulo o seu burro e fechou a grande porta de tábuas que construíra com madeiras salvadas das praias. Antes de entrar em casa, fechou por fora as portadas de madeira, colocando de viés as trancas que as impediriam de bater com o vento e refugiou-se na casa. Alimentou o fogo no forno de lenha onde num tacho de paredes enegrecidas cozia o peixe que pescara, acompanhado por umas batatas que lhe dera o senhor Grimaldo da Venda, por estarem todas greladas. Sentou-se ao pé a fumar o seu cachimbo enquanto a tempestade rolava sobre a casa, fazendo estremecer as paredes e o telhado de tábuas, por vezes conseguia ouvir o burro a zoar na divisão contígua, mas não se alarmava porque era um animal muito medroso que se assustava com tud...