Efeito borboleteante
Quando nasceu, Edgar não chorou como muitas outras crianças. A parteira pegou-lhe pelas pernas e deu-lhe uma palmadas ligeiras no rabo, mas Edgar (ele ainda não tinha nome por então) não chorou, apenas moveu ligeiramente a cabeça pequenita como a manifestar que havia algo que não estava correcto. Limparam-no e aninharam-no no colo da mãe, mas Edgar não chorou nem sentiu nada, sentia-se distante do mundo e das pessoas, da voz e dos beijos da mãe emocionada, do bafo do pai a tabaco e a vinho rasca que lhe queimava a cara quando ele lhe falava junto a si. Os anos passaram e Edgar permaneceu uma criança séria e sisuda como um juiz sóbrio e velho. Não havia lugar para o riso ou para o pranto na sua alma e cresceu sério como se tudo fosse sério e inadiável e tivesse uma função imediata que não poderia ser esquecida. Se uma borboleta esvoaçasse sobre a sua cabeça, não era porque voasse por alegria ou prazer mas porque procurava comida ou porque fugia de quem a queria comer, não havia nada casual nem espontâneo, sentia-o nas suas entranhas, o rolar de um pequeno seixo sobre os seus pés, as ondas a enrolarem-se numa praia, uma folha de Outono a descer hesitante de uma árvore. O seu caminho na vida foi sério e fatalista, não acreditava em nada senão na inutilidade de tudo e na eminência opressora da desgraça e do fim. Racionalizava e encontrava sentido sem ter de pedir emprestado nada ao sonho ou ao sentimento, quando se casou foi porque fazia sentido que a mulher (que muito o amava) fizesse parte da sua vida porque era útil para ambos e os dois se complementavam nos seus papéis próprios. Quando surgiram os filhos, eles possuíam uma causa e um efeito, eram necessários ao mundo como um seixo no chão ou uma abelha num prado florido. Sempre sério e distante, suportou os outros que, na sua maneira própria, encontraram meio de apreciarem a sua maneira de ser e a sua frieza questionadora e sem sentido de humor. Quando o corpo de Edgar por fim começou a ceder numa idade precoce, devorado por dentro por um mal que o enfraquecia e à determinação de uma vida, Edgar começou a ter memórias de coisas que julgava nunca tinha vivido, memórias doridas de tortura e morte de uma existência pretérita, um sofrimento que desde os primeiros dias de vida lhe secara as lágrimas e empalidecera todas as alegrias que pudessem despontar no seu íntimo. Quando o fim se tornou muito próximo, sentiu uma vontade nova de gritar e chorar, mas desaprendera de como o fazer e desapareceu da vida daqueles que o amavam com a mesma seriedade absurda que sempre lhe haviam conhecido, enquanto nas profundezas do seu ser latejava o desespero de um fim sem solução, ao qual se entregava como um bebé indefeso nos braços dos seus torturadores.
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