Quando a ampla vida se conta por um instante maior do que ela
Isilda era como um pequeno anjo de luz. Eu e ela devíamos ter na época uns onze ou doze anos, ela era linda e na confusão de sentimentos inclassificáveis que nos assolam por esses anos turbulentos, sei que gostava mais dela do que de qualquer outra coisa de que me possa lembrar, como era perfeita a tez escura da sua pele, o seu sorriso vivo e o risinho nervoso e musical, e os seus olhos castanhos esverdeados que me adoçavam a alma quando eu os fixava. Bate frágil o coração dos novos como a da cria do pássaro na berma do ninho antes do seu primeiro voo, o coração bate no peito e na garganta, enche de ar as nossas palavras aladas e metamorfoseia um simples gesto num rito sagrado e denso de significado. Na ida ou no regresso da escola, por vezes enchia-me de coragem e sentava-me ao seu lado no autocarro cheio de gente e de cheiros e sons mesclados, fortuitamente dizíamos qualquer coisa um ao outro, outras vezes fazíamos a viagem a olhar para o exterior, para a paisagem africana de aspecto ressequido onde a passagem do autocarro fazia levantar uma espessa nuvem de poeira em volta, seguíamos no mais absoluto silêncio, mas era um silêncio nobre, ornado de fios de ouro e pinturas maravilhosas pelo efeito de um olhar seu, ou do sorriso comedido que me recebia e me fazia sentir em casa. Poderiam os tempos rolar sobre nós sem que nada mudasse, quando um imprevisto nos aproximou um pouco mais e por um período muito breve. No regresso da escola, já de noite, o autocarro avariou na berma da estrada, no interior só restavam três passageiros, eu, a Isilda e o Jorge, um rapaz negro que morava apenas a uns dez metros do lugar em que o autocarro parara, numa aldeia de palhotas telhadas de colmo. O motorista disse-nos que ia caminhar até ao entreposto para tentar telefonar para a sede para enviarem alguém e perguntou-nos se queríamos esperar no autocarro ou se fazíamos a pé o resto do caminho até casa. Era noite cerrada e isso preponderava em ambas as alternativas, mas decidimos ir a pé. Isilda e eu morávamos a uns trezentos metros dali e não seria difícil chegar a casa, pelo que nos despedimos do motorista, que nos avisou antes de partir que ia telefonar também para as nossas casas para prevenir os nossos pais. Eu e Isilda pusemo-nos a caminho, afortunadamente víamos a estrada porque estava uma noite de luar que inundava tudo com uma luz cor de marfim. O meu coração batia com força, caminhava ao lado do meu anjo de luz e isso parecia-me um esplendor de milagre, olhei-a várias vezes enquanto caminhávamos e Isilda ria-se ao de leve e falava da areia sob os nossos pés ou da escuridão e do mato cerrado em volta da estrada. Achei que conversava para se tranquilizar a ela mesma. Ouvia-se o trilar de alguns pássaros e grilos no mato e ao longe, num som persistente e quase fabril, os ruídos mecânicos da Chipanga 4, da mina de carvão onde se trabalhava noite e dia, com a banda rolante a trazer o minério extraído para a superfície e os vagões e comboios a manobrarem sob os depósitos de carga. Os dois caminhávamos devagar, apesar do medo que aquela situação nos inspirava. Um pouco antes do ponto onde a estrada cruzava a linha férrea, senti a mão de Isilda no meu ombro como se me pedisse para parar, estaquei, virado para ela; apesar da escuridão conseguia ver o seu rosto, e num impulso repentino, aproximei desajeitadamente a minha cabeça e beijei-a no rosto, arrependi-me de imediato de o fazer e tive vontade de fugir e embrenhar-me no mato, mas não me movi, sentia-me petrificado como uma estátua, pareceu-me que Isilda sorria e logo numa voz amena perguntou-me.
- Dás-me a mão até chegarmos a casa? – e apontou para o caminho à nossa frente.
Entre nós e a linha férrea, na berma da estrada erguia-se um gigantesco imbondeiro cuja sombra enorme cortava a luz do luar, projectando a escuridão sobre o caminho que tínhamos de atravessar. Demos a mão um ao outro e continuamos a caminhar, a felicidade enchia-me o peito como nunca até então e poucas vezes voltei a sentir depois daquele dia. Eu e Isilda sob o céu africano como se não existisse mais ninguém no mundo, e o toque doce da sua mão na minha, apertando-me com força quando as sombras eram maiores e a noite parecia tornar-se mais ameaçadora. Caminhamos assim até chegarmos junto à casa dela, sob a luz do candeeiro da rua ela desprende a sua mão mas, segurando na minha com ambas as mãos, afagou-a com carinho e despediu-se com uma expressão linda: “Até amanhã!”.
Via-a e entrar no jardim e bater na porta de casa, que logo se abriu para ela entrar. Reparei que eu ainda devia estar a sorrir, talvez tivesse uma expressão pateta, mas não me importava. Podia ter morrido naquele instante, fulminado por algum raio, que a minha vida já teria valido a pena.
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