POLARIS (Para a Angela)

 


“Como é que se começa uma história?” – perguntou-lhe o neto, falando consigo mesmo diante da folha lívida e inane pousada na mesa.

A avó saiu da mesa, tentando não perturbar a sua concentração, de caminho, pegou pela asa da caneca vazia de café de tacho e rumou à cozinha deixando no ar o rasto sinuoso daquele aroma persistente e encorpado de café em pó e artes do fogo. Pousou a caneca no lava-louça, deu uma espreitadela à sala de jantar onde o neto tinha a cabeça pousada entre as duas mãos abertas, e saiu discretamente de casa, transportando com ela um pouco de pão e umas aparas do peito de peru que assara para o jantar. Sentou-se na berma do alpendre, junto aos degraus de madeira da escada, e pousou num dos degraus a comida que trouxera. Não teve de esperar muito, admirou os arbustos a ramejar diante de si a trair a presença que se avizinhava, até a ver, a ursa esguia de pêlo luzidio e focinho um pouco alongado. A ursa aproximou-se mansamente, olhando-a a espaços como se estivesse a pedir-lhe desculpa pela intrusão e quando chegou ao pé da comida, sorveu-a em dois movimentos céleres da cabeça, depois rodou o seu corpo enorme como se fosse voltar para o meio do mato, mas deteve-se e colocando-se em pé sobre as patas traseiras, sentou-se no primeiro degrau, como os ursos de circo a quem o domador exibe a sentarem-se num tamborete. A anciã aproximou-se da ursa com movimentos lentos e fluidos como os da água de um riacho, e afagou-lhe os pêlos do alto da cabeça como se afagasse um caniche inofensivo. E a anciã e a velha ursa ficaram um pouco ali, quietas e em sintonia, a ouvir o respirar e o remexer das criaturas do bosque e a brisa cujos aromas e ecos eram filtrados pelos ramos e folhas das árvores e arbustos. Ao fim de umas horas, e quando a estrela Polaris já se admirava no céu constelado, a quietude de ambas foi perturbada pela insensatez de um coelho rechonchudo que sem medo cirandava a um par de metros delas, longe do segredo e da segurança da toca. A anciã e a ursa entreolharam-se, os olhos da anciã havia-se tornado avermelhados como se estivessem injectados de sangue e os da ursa, ao invés, tinham-se suavizado e tornado mais doces, com revérberos azulados de gente humana. Entrementes, foi a anciã que partiu à caça do tolo coelho, a andar com movimentos pesados de um urso e com as mãos velhas e gretadas a transformarem-se em garras felpudas de unhas alongadas e fortes. A ursa sentada nos degraus permaneceu ali até a metamorfose se completar, então ergueu-se com dificuldade e arrastou os seus membros humanos e a nudez fria do seu corpo envilecido até ao aro da janela da sala, por onde espreitou para o interior. O jovem dormia, com o torso inclinado sobre a mesa enquanto a lareira atrás de si morria na agonia das poucas brasas que ainda brilhavam na caverna escura. A velha senhora entrou na cabana de madeira e refugiou-se no seu quarto, onde vestiu as suas roupas de senhora e escovou os cabelos longos e brancos diante de um espelho, no final, com gestos quase rituais, apanhou os cabelos no alto da cabeça e prendeu-os com um elástico. Depois disso, ninguém a distinguiria da outra anciã que vivia ali em metade do tempo do mundo e cujo rosto igual sorria nas poucas fotografias expostas em molduras.

Entrou na sala e alimentou o fogo da lareira. Viu que o jovem tinha estado a escrever numa folha de papel, ou a tentar escrever, algumas palavras e frases começadas e logo rasuradas com energia, e por acréscimo, uns desenhos geométricos desenhados distraidamente na orla da folha; onde a sua boca tocara na folha quando adormecera, formara-se uma mancha circular de saliva. A lenha que pusera na lareira ainda ardia timidamente e sentindo que a sala ainda estava muito fria, a anciã colocou uma manta sobre os ombros do neto adormecido e foi sentar-se numa poltrona ao lado da lareira, a folhear um álbum de fotografias. Naquelas páginas desfiavam presas às folhas de papel por cantos de cartolina, fotografias tiradas em passeios na cidade distante ou em viagens de grupo a destinos mais afastados mas modestos, e imensas fotografias de cerimónias como baptizados ou casamentos, reconhecia algumas das pessoas que ali apareciam, outras, pensava que nunca as vira. Ao contemplar aquele álbum, era sempre um desafio tentar lembrar-se que parte daquela vida fora vivida por ela.

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