A senhora e o viúvo

 


A senhora

Os corvos marinhos mantêm-se pousados nas rochas quando o mau tempo se avizinha. Isso era algo que Nazino sabia desde criança. Admirou aquelas criaturas de bicos fortes, firmemente ancorados nas rochas altas e com passos leves levou para dentro do estábulo o seu burro e fechou a grande porta de tábuas que construíra com madeiras salvadas das praias. Antes de entrar em casa, fechou por fora as portadas de madeira, colocando de viés as trancas que as impediriam de bater com o vento e refugiou-se na casa. Alimentou o fogo no forno de lenha onde num tacho de paredes enegrecidas cozia o peixe que pescara, acompanhado por umas batatas que lhe dera o senhor Grimaldo da Venda, por estarem todas greladas. Sentou-se ao pé a fumar o seu cachimbo enquanto a tempestade rolava sobre a casa, fazendo estremecer as paredes e o telhado de tábuas, por vezes conseguia ouvir o burro a zoar na divisão contígua, mas não se alarmava porque era um animal muito medroso que se assustava com tudo. Com a colher de pau sondou a consistência da carne do peixe e provou o molho, quando achou que já estava bem cozinhado e que não lhe faltava nada, serviu-se para um prato de estanho e comeu com apetite o seu peixe com batatas, em seguida, recolheu-se sobre a cama, vestido ainda, e puxou a manta sobre si mas com os pés calçados de fora do colchão.

Nazino caiu num sono profundo e quando despertou umas horas depois, reinava um silêncio quase completo apenas matizado pelo som diluído das ondas na praia e sobre as rochas. Sob um sol esfuziante de céu limpo, abriu as portadas da casa e foi espreitar o burro, que mastigava langorosamente na manjedoura. Nazino despiu o camisolão de padrão escocês por começar a sentir calor, e desceu à exígua praia que se estendia na pequena enseada, a água chegava aí por uma entrada estreita entre rochedos escuros e afiados, aquela costa era toda hostil e eriçada de rochedos e, por compensação, eram generosas as suas ondas, e descobria-se naquela nesga de areia ouriços e percebes arrancadas às rochas, pranchas de madeira de botes ou lanchas, por vezes mesmo, um ou outra moeda, pratos partidos ou fragmentos coloridos de jarras arrancada pelas ondas fundas do mar onde repousava os restos de barcos antigos. Nazino começou a recolher num saco os moluscos expostos na areia, atirando para as ondas as estrelas-do-mar, as algas e aos seus fiapos juntava-as num monte, porque os agricultores enterravam-nas nos campos para os alimentar, e em troca, davam sempre a Nazino algumas moedas ou uma cesta com verduras.

Em meio à sua atenta colecta e tão absorto que estava, Nazino dobrou a Rocha do Chapéu e só então avistou aquele corpo de mulher deitado na areia da praia. Os seus membros paralisaram quando a viu e levou alguns minutos até conseguir caminhar na sua direcção, era o corpo de uma dona jovem, deitado de costas, apercebeu-se de que era um corpo sem vida quando notou a forma como o pescoço estava deformado numa posição caprichosa, como uma peça de roupa encharcada torcida à mão, os longos cabelos louros espalhados em volta da cabeça como uma auréola a irradiar a partir da sua face. Do choque, Nazino passou de imediato a um estado de inebriante entusiasmo, uma quase devoção profunda e inexplicável, tão novo e diferente era aquela mulher morta na sua praia. Ajoelhou-se ao lado dela e libertou a sua cabeça dos pequenos caranguejos gulosos que procuravam a maciez dos seus olhos, e logo semicerrando as pálpebras para não ver pormenores, fechou à vista dos céus aqueles olhos já maculados por aquelas criaturas odiosas. Agitado e ofegante, compôs um dos seios da mulher que a blusa rasgada havia colocado à vista, e endireitou a posição das pernas, ajeitando também sobre elas e na cintura o tecido das calças e com a manga da camisola molhada na água humedecer e lavou as minúsculas rosáceas de sangue que se encontravam à vista. Com os dedos abertos penteou os cabelos espalhados sobre a areia, ordenando-os, dando-lhe algum sentido, e foi recuperar na linha de rebentação as estrelas-do-mar que desprezara para com elas compor adornos para os cabelos. Quando o corpo lhe pareceu mais apresentável, é que notou que os pés da senhora estavam atados um ao outro com uma corda grossa, a ponta comprida dessa corda perdia-se no meio da areia. Devia ter sido uma morte horrível presa ao fundo do mar por uma pedra ou uma âncora a debater-se em desespero até a água substituir o ar dos pulmões. Correu, desagradado, até a cabana e apetrechou-se de uma navalha com que cortou as cordas para as atirar para longe. Guardando o canivete no bolso das calças começou a emoldurar o corpo com linhas de silhueta desenhadas na areia com os dedos abertos em chave, que decorou com algas e pontilhadas de conchas e seixos lisos, as linhas, inspirara-o uma gravura de Nossa Senhora de Guadalupe que lhe dera o padre Tomaso. Se pudesse pintar a areia com tintas de várias cores, o efeito seria perfeito.

- Nazino!

Não ouviu chamá-lo, tão concentrado que estava na sua arte.

- Nazino, meu palerma! O que fazes tu?

Era Máximo, o albergueiro. Nazino encolheu os ombros, ajoelhado na areia na orla das linhas desenhadas.

- Não mexas em mais nada, que eu vou chamar a Guarda. Reza para que não impliquem contigo, meu rapaz!

Nazino obedeceu, sentira incerteza e temor com as palavras de Máximo e por esse motivo não se mexeu, e quando a Guarda chegou, ele mantinha-se na mesma posição, ajoelhado como se estivesse a rezar. Os guardas atarefaram-se à volta do corpo, observando, colhendo indícios e tomando notas, um deles, o Lucs aproximou-se de Nazino e sem lhe dirigir ralhos ou recriminações, deu-lhe uma palmada amistosa no ombro como que para o tranquilizar e juntou-se aos outros. Máximo havia-se aproximado dele com tanta discrição que Nazino só deu pela sua presença quando ouviu a sua voz anasalada.

- A dona é a mulher do Doutor Albano, o armador de barcos de pesca, ele deu-a como desaparecida há dois dias – contou - na aldeia contavam que ela devia ter fugido com um amante, que ela teve-os aos montes, ela só estava com o doutor pelo dinheiro dele. Se calhar nem tinha fugido, foi para dentro de algum bote com um dos namorados e veio a tempestade e engoliu-os.

Nazino olhou-o, incrédulo, e nada disse, pensava na beleza do seu rosto aureolado de cabelos dourados e nas marcas fundas das cordas atadas nos tornozelos.

- Agora me lembro porque vim à tua procura – voltou Máximo – tenho na aldeia um grupo de turistas e vou levá-los no Domingo à ruína da torre e a visitar o sítio do naufrágio, como há duas crianças pequenas no grupo, vinha pedir-te para as levares no teu burrico, os turistas pagam bem e eu serei generoso contigo. Posso contar contigo?

Nazino disse que sim. Os guardas mudaram o corpo para uma maca para o levarem dali, ninguém parecia ter notado as marcas encordoadas nos tornozelos.

- Vai ser um funeral bonito e com muita gente – comentou Máximo – pobre Doutor Albano, uma vida infeliz a suportar as traições da mulher e as troças do povo e depois acontece isto.

O viúvo

Quando acabou a missa de Domingo, o povo saiu da capela do Santíssimo Sacramento, regressando às suas casas ou permanecendo no adro em pequenos grupos a conversar, as crianças com as suas melhores roupas e os sapatos a brilhar, corriam e brincavam em volta, era um bom dia para os vendedores de tremoços, pevides tostadas e amendoins. Mesmo ao lado do adro, frente ao albergue do Máximo, o grupo já estava formado para o passeio, e as duas crianças foram colocadas pelas mães em cima da manta dobrada que estava presa ao dorso do burro de Nazino, a primeira delas abraçada ao pescoço do burro com um receio indisfarçável, enquanto a outra se fixava a ela os braços pequenos seguros com força. A mãe de uma das crianças ofereceu-se para caminhar ao lado delas e Nazino aceitou e começou a puxar o burro pela arreata para acompanhar os primeiros curiosos do grupo que se haviam posto em movimento na esteira de Máximo.

Não era um passeio fácil, saídos da aldeia e do chão macadamizado, embrenharam-se por um carreiro por entre as colinas onde a lama das chuvas recentes e as ervas altas e cardos da berma do caminho constrangiam um pouco os passeantes pouco aventureiros nas suas roupas elegantes e quase domingueiras. Tardaram quase uma hora a aproximarem-se do mar e do perfil melancólico da torre em ruínas na crista de um cabeço. As crianças em cima do burro nem se ouviam, tão concentradas que estavam em manter o equilíbrio e não caírem para o chão tão fundo do caminho, os turistas iam-se entretendo, falavam entre eles numa linguagem estranha, faziam circular um odre de vinho pelos mais sequiosos e colhiam flores silvestres e seixos enlameados do caminho. Quando se detiveram junto à torre, Nazino ajudou as crianças a apearem-se e afagou o pescoço do burro ofegante, a idade já lhe tolhia um pouco as forças.

Máximo subiu para cima de um rochedo de forma cúbica com as faces afeiçoadas a cinzel, parecia radiante por concentrar a atenção de todos. Fez um gesto largo com um dos braços, abarcando toda a torre e as vidas e evos que ela condensava.

- Construíram esta torre – declamou – para vigiar a aproximação dos piratas que saqueavam esta costa e roubavam e matavam tudo o que se atravessava diante do gume das suas espadas. O sinal de alarme era uma fogueira neste lugar que deitava um fumo escuro e espesso, à vista da qual as populações fugiam mais para o interior, carregando os seus filhos e os seus animais. Mas um dia chegou em que o povo daqui se vingou…

- Ne razumijem! – gritou um dos turistas

Máximo ignorou-o e fez uma longa pausa deliberada, desfrutando da curiosidade ávida nos olhos daquelas pessoas. Encheu o peito de ar como se fosse mergulhar fundo, e continuou.

- Um dia chegou em que a rebentação fez encalhar um barco de piratas na Prainha lá em baixo. A barca desfez-se como um barquinho feito com palitos de fósforos. Morreram muitos piratas e os outros, na aflição, vieram pela ladeira acima a gritar em turco e a rezar ao Deus deles, mas quando chegaram aqui ao pé da torre, encontraram o povo, que os esperavam. Os populares tinham acorrido ás dezenas para aqui, homens, mulheres e crianças, e todos juntos e fiados no seu número mataram os piratas todos, usando enxadas, chuços e arpões de pesca.

- Ne razumijem! – voltou-se a ouvir, mas agora fora uma senhora baixa e atarracada a proferir aquelas palavras em tom de queixa - ne primjećujem ništa!

- Depois de matarem os piratas – continuou Máximo - fizeram uma festa, brincaram com os corpos e cuspiram neles, dançaram e riram com mímicas obscenas sobre os corpos cheiros de sangue e finalmente trouxeram mato seco e lenha e atearam um fogaréu para cozinhar aqueles bandidos. A fogueira ardeu durante horas e cheirava a porco cozinhado, e cada pessoa que tivesse um cão foi então a sua casa buscá-lo, e depois de apagarem o fogo, os cães fizeram o seu banquete e encheram as suas barrigas vazias e quando se fartaram, os donos levaram os cães e levaram as sobras da carne para os alimentar nos dias que se seguiram.

Máximo suspirou fundo, fatigado que estava de gritar alto para que todos o entendessem.

- Agora vamos até à Prainhan– anunciou, chamando-os com os braços erguidos – vamos ver o sítio do naufrágio e se vocês ouvirem sons estranhos, pode ser das ondas nas grutas ou dos fantasmas torturados dos piratas.

Nazino ficou a vê-los a afastar-se pelo meio dos rochedos conquíferos de arestas cortantes, sentado ao lado do seu burro, a aborrecer-se e a desenhar traços na areia com um estilete de cana. O som das ondas trouxe-lhe um som novo e estranho e levantou-se de um salto a pensar nos fantasmas de Máximo. Começou a contornar a torre em busca da origem daquele som e deparou-se com um casal deitado muito juntos no centro da torre, ela gritava de pernas nuas cor de bronze apontadas ao céu enquanto o seu companheiro, anichado no meio delas, a penetrava em arrancadas vigorosas.

Nazino sentiu-se perturbado e tapou os olhos com as mãos e às arrecuas voltou para a pedra em que estivera sentado, e aí, resguardado pela muralha de pedra, destapou lentamente os olhos e usou as mãos para isolar os ouvidos dos gritos de prazer da jovem despida e assim permaneceu como um dos três macacos sábios. Só renunciou à sua voluntária reclusão quando notou que os turistas estavam a voltar e viu as duas crianças a caminharem na sua direcção com Máximo a segurá-las pelas mãos. Ergueu-se e instalou-as sobre o burro e iniciaram o regresso à aldeia sob um vento cortante que assobiava por entre os rochedos da costa, Nazino sentiu na nuca um calor luminoso que lhe chegava da torre como se a nudez sacrílega daquela mulher aos gritos incandescesse o ar à sua volta, por fim, não conseguindo mais resistir, olhou para trás, para as ruínas da torre, mas já não estava lá ninguém, nem pessoas nem estátuas de sal, talvez aqueles dois fossem turistas e caminhassem pelo meio dos outros com sorrisos de luz, ou então dois fantasmas, a de um pirata de turbante e a sua amada odalisca a consumirem-se numa paixão imorredoura. Sacudiu a cabeça para afastar esses pensamentos que o confundiam, e o caminho até a aldeia levou-o de vencida a olhar para o chão com uma tristeza sem nome. Pareceu interminável aquele percurso até ao albergue e daí até à sua cabana, com as moedas de Máximo a tilintar no bolso do casaco velho que o resguardava do frio. Mais um pouco e seria noite cerrada e só pensava em resguardar o seu burro e recolher-se à cabana e acender o forno de lenha para cozinhar alguma coisa. Mas apenas teve tempo de acomodar o burro porque quando voltou ao exterior, avistou a figura de um homem em pé junto à Rocha do Chapéu. Não podia ignorá-lo, estava ali, ao pé da sua casa na noite que iniciava e não podia ficar acordado a pensar se devia ou não ter medo daquele homem desconhecido na sua praia. Desceu o declive até á praia, nesse interím o homem rodou o corpo e olhou-o, de frente para ele, como se o esperasse.

Não era muito jovem, os cabelos esbranquiçados e os olhos encovados. A primeira coisa que Nazino distinguiu foi a luz escura que emanava dele, uma luz enferma e agonizante como a de um moribundo. E sim, sentiu medo daquele homem, mais do que sentiria se ele tivesse vindo para roubar a sua cabana ou matá-lo durante o sono.

- Guillermo Nazino? – perguntou-lhe ele.

Nazino confirmou. Aquele homem só podia ser o Doutor Albano, o armador de barcos de pesca.

- Você encontrou o corpo morto da minha mulher, Regina.

Regina, a rainha, de cabelos dourados e uma coroa de estrelas-do-mar. Na sua simplicidade, Nazino não sabia ou não gostava de mentir, mas sentiu um ímpeto a que não soube resistir, e as palavras saíram-lhe como se castigasse alguém por lhe ter roubado alguma coisa.

- Regina não estava morta – disse, convicto – e ainda viveu algumas horas a chorar e a gritar pelo seu nome.

- Idiota mentiroso! – gritou o viúvo, golpeando-lhe com força os ombros e as costelas.

O corpo de Nazino desabou sobre a areia e logo o viúvo lhe assestou alguns pontapés antes de se imobilizar, a resfolegar do esforço.

 - Idiota chapado – rugia - a tua mãe deve ter urinado num altar para Deus a fazer parir um atrasado como tu.

Dorido e a gemer de dor, Nazino levantou-se com esforço.

 - Regina estava viva e a gritar por si e você vai ouvir muitas vezes esses gritos – Nazino sentiu a fúria do homem crescer e a recrudescer como uma nascida ruim – as cordas que você atou aos pés dela são iguais àquela que você irá atar ao seu próprio pescoço.

A fúria do viúvo refluiu sobre ele mesmo, gritou, golpeou as suas próprias faces e arrancou os cabelos a cambalear pela areia da praia como um animal cego a uivar. Nazino ficou imóvel enquanto o via e ouvia com nitidez e depois regressou á cabana e sentou-se nos degraus da entrada com a lua a empoar-lhe de luz os seus cabelos.

- Repousa em paz! – murmurou com o coração desoprimido, como se Regina ainda estivesse deitada na praia escurecida, a abrir os seus olhos intactos para um céu semeado de estrelas.


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