Natal [história escrita a 2 mãos com a MARIA DOS ANJOS CASTANHEIRA CALADO]


Ainda a tarde se delongava nas últimas e deliciadas horas de claridade de Dezembro quando o jovem pároco ouviu bater à sua porta. Pousou o candeeiro de petróleo que estava prestes a acender e apressou-se a abri-la. No degrau de calcário da entrada estavam dois paroquianos seus, de olhar grave e mãos de dedos entrelaçados sobre as barrigas salientes. Eram os Antunes da Teresa, dois irmãos, acólitos e juízes de festa, tacticamente complicados a abordar qualquer assunto relativo à paróquia ou aos paroquianos.

- Hoje é noite de Natal, senhor nosso padre - começou o mais novo com uma voz monocórdica - é tradição e tradição de respeito e reverência que o senhor padre jante connosco no salão da coletividade, temos anho, galinha e peru, bolos feitos com muitos ovos e brindeiras da senhora Dona Helena da Serra. Pode o senhor nosso padre não o desejar, mas terá de o explicar porque o recusa quando der a Santa Missa.

O Padre Vicente suspirou de forma discreta e foi vestir um casaco felpudo que trouxera de Viseu, terra do seu berço e ante os olhares desconfiados dos dois paroquianos, fechou a porta da casa da vigararia e seguiu com eles pelas ruas lajeadas da aldeia. Fazia um frio cortante, que só o pálido calor dos últimos raios de sol impedia de reinar em absoluto. Quando passaram ao adro da igreja, avistaram a fogaréu das chamas que se havia ateado na tarde do dia 20 e que ardia ininterruptamente desde então. Por instinto, os três detiveram-se perto da fogueira e aqueceram as palmas das mãos na luz bruxuleante da fogueira.

- Vocês, meus irmãos, que tudo conhecem desta terra e das suas tradições, explicai-me agora porque acendem esta fogueira tão antes do Natal, como se estivéssemos no São João.

Os dois entreolharam-se como dois adultos perante a pergunta pueril de um inocente. Começaram os dois a responder ao mesmo tempo, até um deles desistir com impaciência e o irmão tomar a si o encargo.

- Nosso Senhor Jesus Cristo é a Luz do Mundo, mas a luz do Céu, o Sol, cansada de brilhar antes d'Ele nascer, fica cada vez mais fraca, tão débil que parece estar a morrer. No dia 21, Deus Nosso Senhor mostra a todos os cristãos como ficaria o mundo se o Seu Filho não nascesse, e cabe a nós, filhos diletos de Deus, mostrar que compreendemos a lição e acendemos então a fogueira para dar calor ao Sol, a anunciar o nascimento do Nosso Salvador. Na fogueira queimamos plantas de cheiro perfumado cujos aromas confortam as pessoas nas suas casas e os animais nos estábulos, agora rendidos todos à fé inquebrantável de que o mundo não vai ser amortalhado em frio e escuridão como antes poderiam pensar.

- E o cordeiro de patas atadas que é benzido nos degraus do altar no final da Missa do Galo?

- É tradição e tradição de respeito e reverência, mas não sabemos qual o preceito disso, apenas que já era feito no tempo dos nossos avós e dos avós dos nossos avós, só que então era feita na laje inclinada que está ao lado do sobreiro do adro até um padre cismático da capital o proibir.

O padre não se deu por vencido e enquanto reatavam o caminho para o lugar do festim, ainda se lembrou de outras.

- E por acaso não se lembram qual é a tradição de respeito e reverência que leva os paroquianos a deixar durante a noite, coroas armadas com ervas do campo em todas as portas e janelas da igreja e da casa paroquial?

- Não sabemos de tal, senhor nosso padre, mas parece de bom pensar que essas coroas nos dizem que Deus recém-nascido já reina sobre todos os cristãos.

- E os pregos de ferro na cabeça do ícone de S. Sebastião?

- Também nada sei - respondeu o irmão que estivera calado até aí - os pregos na cabeça do santo são a sua coroa e as flechas no seu corpo a luz que irradia. Quanto maior a sua dor, maior é a sua glória! Se alguém morrer a estrebuchar, mas o fizer para glória de Deus Nosso Senhor, então o seu sofrimento é santificado aos olhos de Deus, de Jesus Cristo e de todos os anjos e santos.

O padre suspirou e continuaram até ao local de repasto. O convívio correu devagar em meio da solenidade adequada. Mais tarde haveria a Missa e o padre ia remoendo a homilia.

Quando todos se aquietaram nos bancos duros e frios da pequena igreja a Missa começou. A luz das velas iluminava o altar e foi então que o padre iniciou a prece:

Nesta noite celebramos o nascimento de Cristo. Ele nasceu criança e como qualquer criança sorveu o leite materno. Abrigou-se nos braços do pai José. Vieram de fora oferecer-lhe prendas, mas ele não notou. Como qualquer criança mamou e procurou afeto em todos os sorrisos que o rodearam. E devolveu o sorriso e a Esperança a Todos. Uma criança é sempre a promessa de futuro sem mácula. Uma criança é sempre a verdade sem filtro. Uma criança é sempre a possibilidade de evolução para a humanidade. Uma criança é sempre um amanhã cheio de possibilidades.

Nas vossas tradições está depositada toda essa Esperança. A repetição dos ritos recorda essa pura alegria que inunda os corações com a Esperança primordial. Porém nos outros dias do ano, na espuma dos dias, a esperança mingua, a esperança fica arredada, a esperança desfalece. E o coração desespera. A tradição transforma-se num gesto mecânico para muitos.

É necessário que voltem a acreditar e é muito simples: olhem as crianças da aldeia. Convivam com as crianças da aldeia. Brinquem com as vossas crianças. Deixem que as crianças vos contagiem com a sua pura alegria…”

Nisto a Maria, criança de 3 anos, corre para o altar fugindo à mãe. O padre corre em direção à Maria e começam os dois a correr em volta do púlpito. Todos abrem o sorriso e as mães aconchegam as suas crianças no regaço.

Onde está o Menino Jesus? Ah sim! Está no meio de nós, brincando à apanhada connosco.

Feliz Natal!»


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