XX - VINTE anos
Em 2006, há quase vinte anos, foi a minha primeira experiência no Blogger, já não era um neófito, começara antes com outro blogue em outra plataforma, o Myspace, onde se trabalhava imenso para fazer coisas que depois nos eram oferecidas, trabalhava-se com html para configurar o aspeto e as pequenas surpresas de cada publicação, cheguei a experimentar publicar um texto com o fundo em amarelo (horrível) ou as letras em roxo e verde, só para me congratular intimamente por ter conseguido chegar a esses resultados parvos com o meu uso do código do blogue. No Blogger tudo era mais fácil, intuitivo, como eles diziam, ou facilitivo de tão pouco desafiante que se tornara, era só escrever e publicar, quando notávamos imperfeições (e eram muitas), voltava-se atrás, corrigia-se, e o bebé trôpego e disforme voltava a sair do ventre da mãe com uma deficiência a menos, menos horroroso ao olhar sensível e traumatizado dos transeuntes. Em 2006, os blogues ainda tinham as velas enfunadas, parecia que com eles iríamos cruzar oceanos e chegar a qualquer lado (mais uma tolice coletiva), havia outras pessoas que escreviam, comentávamos o que eles faziam e eles davam troco com comentários gentis, mas eram comentários, havia crítica e havia coragem, e só um avis rara é que se ofendia com isso ou nos bloqueava. Aprendi muito com muitas pessoas, autores de calibre e craveira, com poetas e ficcionistas, com prosadores densos que me faziam pensar e pensar fazer e escrever melhor. Por vezes aparecia um pote de mel, um comentador ou admirador tão melífluo que enjoava, mas era raro. Em contrapartida, nunca me cruzei com um hater, era demasiado insignificante para isso, mas assisti à ação de alguns, que pousavam nos blogues mais lidos e caíam sobre o escrevinhador como um abutre sobre uma carcaça inerte, até dava dó, por vezes, outros leitores do blogue juntavam-se à liça para espantar os abutres, mas aí eles ganhavam mais força e arrojo porque sabiam agora que a estratégia estava a resultar e aí é que não "deslargavam" a carniça. No Blogger o meu blogue pessoal era o Estrada de Santiago (no sentido de Via Látea e não de peregrino com uma concha de vieira na ilharga), o nome já vinha do Myspace porque aí o único template de jeito que encontrei nos meus primeiros dias era precisamente um com o perfil da Via Látea sobre um fundo de milhares de estrelas (na altura ainda era muito de FC e Ovnis, hoje apenas de FC). No Blogger, a caminhar na Estrada, escrevia por escrever e por vezes as coisas saíam bem, outras enfastiava-me e estava uns tempos ausente, e havia logo alguém que me contatava para saber se eu estava bem, o que era estranho mas agradável, como um copo de vinho aquecido à lareira num dia gelado de inverno, as pessoas não me conheciam, não sabiam quem eu era, se era um puto imberbe ou um nonagenário a blogar no computador do bisneto, mas a comunicação estabelecia-se e eu voltava a escrever para sossegar os meus pares na Caverna do mundo onde só lhes conhecia as vozes, escritas. A palavra era a pessoa, se calhava escrever um texto mais sombrio, também havia quem se perguntasse, ou a mim, se eu estava bem ou se estava a ensaiar para escrever um bilhete de suicídio, mas era prosa ou ficção, saía, não era eu e é como se não fosse meu, mas por vezes tomavam-me a sério e eu a outros autores que lia. Uma vez mais, a Caverna e as vozes, ou um desfile de cara tapada numa galeria de espelhos.
O Estrada de Santiago durou mais do que eu estava à espera, teve interregnos e retomas (não de economia, que não se ganhava cheta), dúvidas existenciais e preguiças monumentais, e um dia tinha de acabar. Ainda existe, mas em vida suspensa, com um único leitor, eu. Liguei-o à máquina e qualquer dia desligo a máquina. Ficou este caderno de notas, abandonado há um (hor)ror de anos, mas que agora apeteceu-me, como ao celibatário que faz uma visita rápida à casa de meninas (devia apagar esta frase, agora não cai bem, nada cai bem num universo de lotófagos). Porque é que acabou? A causa mais próxima, mas talvez nem fosse uma causa, foi um sacana copiar e postar/pastar os meus textos, ia buscar os menos recentes, prosa com cinco, seis anos (uma publicação com seis anos é um matusalém no mundo dos blogues) e republicava-os como se fossem dele num blogue brasileiro, e como as pessoas gostavam daqueles textos meus (DELE) e se derretiam nos comentários como banha na frigideira quente. Não foi pirraça nem amuo, chateou-me e enraiveceu-me, ou talvez eu estivesse a precisar de medicação, que não tinha, para surto de plagiarismo. Escrevi a esse blogger replicante, usei de ironia (ao menos podia corrigir os meus erros de ortografia, ou, você vai me explicar como brasileiro de Minas escreve com a linguagem e o calão de um português nascido em África), de sarcasmo, ameacei com organismos mundiais de combate ao plágio (FC), que ia atacar o IP dele a pontos de ele só conseguir comunicar por bilhete escrito e entregue à mão. Mas depois desisti. Era um sinal do universo. Paralelo. Se alguém que não consegue escrever te escolhe a ti para plagiar, o último numa lista de milhões de candidatos adequados, era sinal de que eu entrara num universo alternativo onde o absurdo reinava. Só podia. Fechei o meu blogue. Escondi-o numa arrecadação que metia água. Se ninguém o encontrar, talvez dê origem a lesmas ou cogumelos, mais úteis ao universo do que um arquivo morto (os arquivos mortos não atraem lesmas nem vermes, possuem demasiado ácido úrico).
E aqui estou eu, quase vinte anos depois de me ter iniciado no Blogger. Sou eu mesmo, ok?! Não um IA que tomou conta disto. Se fosse, acharia isso tão absurdo como o Blogger de Minas, e pela primeira vez na vida deixaria de achar o IA como uma ameaça para o pensamento porque essa teria sido a coisa mais estúpida a que tinha assistido na minha vida.
P.S. : um antigo blogger (isto soa como escriba ou polícia-sinaleiro) sugeriu-me que criássemos um podcast.
Sério?
Deve ser CASTigo por algum crime.
Só POD!
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