Croniqueta sobre os dragões malignos da ilhota de Eigg Galmisdale
Frei Geovildo, prelado-mor do nosso Mosteiro do Santo Lenho, encarregou-me a mim, monge-copista da livraria do Mosteiro, de anotar tudo o que presenciei desde os primeiros sinais de dragões no nosso recanto da Hibernia.
Ainda antes de os vermos pela primeira vez, os barqueiros e os pescadores contaram que os dragões já haviam causado a destruição na costa diante da nossa ilha e apenas um ténue estreito sem rochedos nem ventos indómitos nos separavam desses lugares ora devastados. Em Kilchoan, os dragões entraram nas casas das pessoas, destruindo e matando quem queriam, os seus hálitos pestilentos insinuavam-se pelas narinas e boca dos campesinos, que sucumbiam à dor enquanto os seus órgãos eram calcinados por aquele sopro maligno; em Glenuig e Mallaig, os dragões não quiseram saber das pessoas, mas incendiaram os seus celeiros de cereais secos, devoraram os frutos nas árvores, e destruíram a carne conservada em gelo nos subterrâneos em pedra das suas granjas.
Quando os avistamos em Eigg Galmisdale, o seu aspecto hediondo aterrorizou-nos de imediato, longas e luzidias placas ósseas de cor rubra revestiam os seus corpos e a bainha das suas asas como uma armadura diabólica contra as lanças e dardos e os seus focinhos longos – duas vezes o tamanho da cabeça de um potro selvagem – eram protegidos a toda a volta com hastes ósseas boleadas na ponta que tornavam ineficazes os golpes de uma espada ou de um maço. Corremos a refugiar-nos onde podíamos, nas criptas da abadia, em grutas e buracos na terra, nos recessos dos rochedos, enquanto os dragões destruíam o que queriam sem que ninguém se lhes opusesse, esvoaçando sobre os que oravam de joelhos nos chão e os que corriam com os braços levantados ao alto. O seu ataque durou horas, até aos primeiros sinais do anoitecer e depois retiraram-se para as escarpas, onde passaram a noite como gaivotas ou corvos marinhos. Ao longo da noite, com a luz dos archotes, recolhemos os feridos no mosteiro e enterramos duas aldeãs mortas, irreconhecíveis por terem as narinas rasgadas pelas unhas dos dragões. Às primeiras luzes do amanhecer, quando já se adivinhava o regresso dos dragões, um ferreiro da aldeia veio a correr ao mosteiro contar a mais espantosa das notícias – havia um dragão morto junto às falésias de Bearraidhean, e muitas pessoas tinham ido lá para o ver, não parecia ferido pelo que podia ter apenas morrido de doença ou de velhice. Frei Geovildo ordenou aos monges que o trouxessem para dentro do mosteiro, e organizou-se um grupo de dez monges, aprovisionado de cordas, mantos e redes para o transportarem, o prelado-maior ordenara-lhes a maior pressa, porque desconhecia e temia o que os outros dragões poderiam fazer se os surpreendessem nessa tarefa insólita. O dragão sem vida foi trazido prontamente para dentro do convento, e sob as ordens de Frei Geovildo foi colocado no lugar mais recôndito e profundo do mosteiro, uma cripta antiga sob a nave da igreja que, antes de servir para sepultamento de bispos e abades, fora o chão sagrado onde se havia enterrado chefes tribais e druidas. Fechadas as portas do mosteiro e das casas da aldeia, e barricadas estas por dentro com peças de mobiliário como camas e mesas, e com tudo o mais o que pudesse entravar a entrada dos dragões, de alguidares e potes de barro a velhos monólitos e ídolos de pedra. Sem perder tempo, o prelado-mor mandou chamar Frei Hian, um velho monge que vivera muitas histórias na sua longa vida e a quem todos tributavam respeito e consideração. Frei Hian andara, dizia-se, pela Terra Santa e pelas cidades dos líbios e era reputado de ter aprendido medicina e magia com sábios otomanos, mas tudo isso guardava um halo de lenda e especulação e tudo o que se tinha como certo é que fora arquiteto de templos em Granada, no reino das Espanhas. Frei Geovildo instruiu-o para que observasse o corpo do dragão e que depois consultasse os velhos livros da ciência secreta para tentar encontrar algum remédio contra os dragões. Frei Hian concordou, e admirou aquela criatura, estranha e maravilhosa aos seus olhos, mexendo por vezes naquele corpo couraçado, nas hastes ósseas da sua cabeça, nas unhas afiadas e recurvas das suas patas. Em seguida, tão silenciosamente como uma sombra, refugiou-se durante algum tempo na secção de livros proibidos da livraria do mosteiro e depois regressou para junto dos seus irmãos que o esperavam no refeitório conventual, sentados nos bancos de pedra corridos como se aguardassem uma refeição. Frei Hian a quem todos chamavam Mestre com toda a propriedade, expôs as conclusões a que chegara numa toada tranquila e sem pressas, perorou sobre as categorias de Aristóteles e o tratado de venenos de Andulfo, o Heresiarca de Bizâncio, para introduzir a sua opinião sobre os dragões, nada poderia derrotar os dragões senão outros dragões, defendeu, e como os monges não se podiam transformar em dragões para lutarmos de igual com eles, poderíamos pelo menos, tornarmo-nos símiles, ocultar a nossa natureza de seres criados pelo Senhor do Universo sob o aspecto pestilento e venenoso daquelas criaturas horríveis e malditas. E como o poderíamos fazer? A proposta de Frei Hian parecia simples. Desguarnecer o dragão morto da sua armadura de placas e da sua coroa na cabeça e cozê-lo em pedaços nos panelões da cozinha do convento, depois da sua carne e gordura serem reduzidas a uma pasta semelhante à banha do porco, todos usariam esse preparado para exalarem o odor dos dragões, besuntando com ele as portas das casas e as espáduas e cabeças de quem andasse à luz dos astros, e concluiu com uma sentença de Galeno em latim, que postulava, e apenas uns poucos o entenderam, que apenas o veneno subjuga o veneno.
Num ápice, todos aqueles frades de costumes piedosos e vidas regradas, acometeram a tarefa de prepararem e cozinharem o corpo morto daquela criatura alada. Frei Hian não se cansava de recomendar que deveriam cozinhar aquela carne sem sal nem outros condimentos para que pudessem ter sucesso naquele estratagema, mas os que o ouviam, suados do calor do fogo e com tecidos enrolados à volta da boca e do nariz para atenuar o cheiro ácido e violento daquela carne a cozer, apenas desejariam verter perfumes e fragrâncias agradáveis na água dos panelões. No final, a gordura que se obteve era em tão grande quantidade que Frei Geovildo ordenou que se guardasse uma boa parte dela em barricas novas de madeira de carvalho, que logo foram fechadas e seladas com cera e alcatrão para melhor se conservar.
Restava submeter o preparado à aprovação dos feros dragões. Sem hesitações, Frei Hian retirou um pouco da gordura com um púcaro e usando as mãos, espalhou-a generosamente nos seus ombros e cabelos. Tomou o caminho da entrada do mosteiro, sendo imitado por outros três monges que fizeram o mesmo que ele antes de formarem na sua peugada um pequeno séquito a tresandar àquela gordura.
Os quatro paladinos saíram do convento e avançaram até à praceta do pelourinho sob os primeiros raios da aurora. Sentaram-se nos degraus do pelourinho, as mãos a acariciar os seus crucifixos e uma pertinaz oração nos lábios semicerrados. Como um torvelinho de poeira e sons, dois dragões surgiram na praceta e aproximaram-se deles, adensava o ar um odor que lhes era familiar, e chegaram-se ao pé dos homens de Deus, cheiraram-nos e fitaram as suas figuras modestas como se vissem humanos pela primeira vez, e enquanto os monges ciciavam agora as suas orações de forma muito audível, os dragões desinteressaram-se deles e afastaram-se pelas ruas. Os quatro monges regressaram em júbilo ao mosteiro onde foram recebidos como heróis, e logo saíram dali emissários para levar a gordura de dragão a todas as casas da aldeia.
Os dragões ainda se demoraram na ilha mais dois dias, mas sem voltarem a incomodar os seus habitantes ou a causar a destruição em redor deles. Por todo o lado, o cheiro horrível daquela pasta parecia inibir os seus impulsos e, de um momento para o outro, os dragões abandonaram a ilha, voando para norte.
Com a sua partida, as coisas voltaram ao que era, o trabalho dos camponeses e a faina dos pescadores, os monges com os seus afazeres e as rotinas certas ao longo do dia, para orarem e trabalharem. Os dias converteram-se em semanas e estas em meses, e na Primavera seguinte, quando todos pensavam que tudo aquilo tinha era passado e História, chegaram notícias da ilha grande – os dragões tinham sido avistados novamente, nas margens do Loch Morar e em Drumindarroch tinham comido pessoas e destruído colheitas. Quando os primeiros foram avistados a esvoaçar sobre as águas do canal, já todos os residentes da ilha se haviam refugiado nas suas casas por determinação de Frei Geovildo. Desta vez, a descrição das cautas testemunhas trouxe uma novidade surpreendente, estes dragões, apesar da morfologia dos seus corpos, membros e cabeças ser igual, já não tinham a cor avermelhada das criaturas do ano precedente, mas as suas figuras refulgiam num amarelo de ouro. Frei Hian transmitiu aos outros monges as suas dúvidas sobre se a gordura obtida com o dragão caído seria eficaz contra estes novos intrusos por serem diferentes, mas logo um dos monges se ofereceu para comprovar a eficácia daquele remédio. O monge era uma pobre figura de gente, pequeno e esquálido, com o hábito folgado a dançar sobre o seu corpo, mas inflado com a coragem que o movia; protegido nas vestes e na cabeça com aquela substância gordurosa, aproximou-se do pelourinho, mas ainda antes de o alcançar, os dragões saíram-lhe ao caminho e comeram-no sem contemplações, pareciam lobos encarniçados a devorar um pequeno pardal indefeso. Os aldeões e os religiosos, na relativa segurança dos seus abrigos, sentiram-se horrorizados com aquela morte. Enxutas as lágrimas e as preces, os monges voltaram a reunir-se na grande sala do refeitório. Desta vez, ainda abalado com a morte infeliz do monge, Frei Hian não se mostrou muito seguro da sua ciência, mas aventou com algum sentido que precisavam de outro dragão morto para extraírem um novo preparado que os protegesse daquela nova raça de dragões. Os monges admiraram-se com o desafio. Matar um dragão? Como S. Jorge com a lança? Frei Hian sabia que isso era impraticável, precisavam de um e apenas um dragão morto, e sugeriu que antes do alvorecer se colocasse num escaninho da praceta um pedaço de carne fumada cheia de veneno, preparada por ele porque entre as âmbulas de vidro do seu recanto de coisas químicas, encontrava-se uma com um veneno que concebera que era capaz de aniquilar a Besta do Apocalipse. Todos concordaram e Frei Geovildo sancionou a ideia. Levaram a Frei Hian o naco de carne, ele abriu-a com a ponta de uma faca e colocou no interior o pó de veneno, previamente misturado numa taça com um pouco de ervas da cozinha, para que nenhum cheiro estranho alarmasse o comensal.
Aguardaram que as horas passassem e em plena noite, quando se supunha que os dragões estivessem recolhidos nos rochedos e nos palheiros da ilha, ajudei Frei Hian a carregar o pedaço de carne fumada até à praceta. Ali, o mestre achou que o melhor sítio para a colocar era debaixo do longo banco de pedra onde em outras Eras se sentavam em conselho os homens-bons do concelho. Ainda que ficasse um pouco dissimulado, os dragões decerto dariam por ele mas, como espaço era reduzido, apenas um conseguiria alcançá-lo e abocanhá-lo. O mestre Hian e eu escondemo-nos na casa mais próxima do banco, espreitando a praceta por uma fresta de uma janela entaipada. Enquanto aguardávamos pelo nascer do sol e pelo regresso dos dragões, reuni coragem e perguntei ao mestre sobre o que ele sabia dos dragões, porque é que só agora tinham voltado a aparecer, e de onde vinham e para onde iam aquelas criaturas demoníacas? Frei Hian revelou o seu desconhecimento sobre o assunto com uma simplicidade socrática, talvez, supunha ele, os dragões existissem desde o princípio dos tempos, a serpente do Jardim do Éden podia ter sido um dragão, por todo o lado correm histórias sobre os dragões e as maçãs mágicas ou de ouro que eles guardam. Sobre a sua passagem pela ilha de Eigg Galmisdale e pelas terras vizinhas, acreditava que talvez eles estivessem a sair do mundo e a regressar à terra de onde provinham, e Frei Hian contou que os primeiros monges de Cristo nas terras dos Gauleses tinham ouvido deles que o primeiro lar dos dragões era uma ilha no extremo norte, ou então um mundo edénico debaixo dos nossos pés ao qual se acedia por um lago ou uma caverna nessa ilha.
Notamos que o dia começava a nascer e permanecemos num prudente silêncio, a observar a pequena praça e o banco de granito. Não foi preciso esperar muito para avistarmos as sombras daquelas criaturas que esvoaçam e logo em seguida, as suas silhuetas assustadoras no chão da aldeia, esbatidas por um nevoeiro denso. Como esperavam, não tardou que um deles se apercebesse do cheiro daquele naco de carne, aproximou-se dele com frenesi, colocou de lado a sua cabeça com a coroa de hastes douradas e alcançou a carne, que mastigou ruidosamente. Os dois religiosos suspenderam a respiração, temendo o pior, mas bastaram poucos instantes para admirarem a forma como as asas daquele dragão desmaiavam como os panos de vela de um barco sem vento, as pernas traseiras dobraram-se e tombou para o lado, ainda com a cabeça sob o banco. Os dois congratularam-se com o resultado, fecharam bem a janela e aceitaram a hospitalidade dos donos da casa, enquanto o sol brilhava no céu e os dragões devastavam a ilha.
Quando as trevas regressaram à ilha, eu e Frei Hian reunimo-nos a outros monges que nos vieram auxiliar e transportamos com dificuldade o corpo do dragão morto para dentro do mosteiro. Como equipas de remadores habituadas às suas rotinas, os monges executaram as mesmas tarefas da noite em que o outro dragão ali fora preparado, e depressa se retirou os seus ornamentos e cornamentas ósseas, e se cortou o corpo em pedaços mais pequenos para se poder cozinhar nos caldeirões de ferro, produzindo de igual forma uma gordura viscosa como um unguento fétido. Separou-se gordura para ser usada no momento e a que parecia poder exceder, guardaram-na como da primeira vez em barricas bem seladas, enquanto outros monges lavavam os caldeirões dos vestígios daquela gordura e da eventual presença do veneno que o matara. Sem esperar pelo nascer do sol, Frei Hian enviou alguns monges a entregar alguma gordura em todas as casas da aldeia, ao mesmo tempo que untavam as suas portas para as proteger. Para que não ocorresse mais nenhuma fatalidade como a do monge devorado na praceta, besuntaram com a gordura um outro naco de carne fumada que deixaram a descoberto no centro de uma das ruas empedradas da aldeia. Aguardaram pacientemente, espreitando em lugares protegidos. Pela manhã, os dragões voltaram a pousar e caminhar na praça e nas ruas da aldeia, e o seu comportamento era notoriamente diferente. Não acometeram as casas, nem comeram o naco de carne, apesar de muitos se terem acercado para o cheirar. À vista disso, eu e Frei Hian besuntamo-nos com a mesma gordura e saímos para o exterior, a caminhar incólumes entre os dragões passivos, a dar sinal aos outros ilhéus que era seguro fazê-lo.
Desta feita, os dragões demoraram mais alguns dias na ilha, suprindo os seus estômagos com frutos das árvores, peixes e de uma ou outra rês que se havia esquecido nos prados; por fim, ergueram-se nos ares como um bando de aves e numa revoada ruidosa e crocitante tomaram o caminho do norte. Depois da sua partida, Frei Geovildo escreveu diversas missivas para a ilha grande a contar o que haviam conseguido em Eigg Galmisdale, pedindo aos seus destinatários que organizassem vigias e que, ao primeiro sinal do avistamento de outros dragões, que o comunicassem em todas as direcções e paragens com fogueiras de fumo espesso.
Confiados no que antes se passara, a vida em Eigg Galmisdale desenrolou-se de forma imperturbada até ao aproximar da Primavera seguinte, entre aldeões e monges passou então a haver sempre alguém a perscrutar os céus, à procura de avistar os dragões ou as colunas de fumo de aviso de outros vigilantes. O aviso surgiu num dia de missa conventual, com o sol quase a prumo – uma coluna de fumo negro a erguer-se nos ares a sul, na direcção da ilha de Tiree. Enquanto o sinal era reproduzido numa fogueira no norte da ilha, os monges fecharam as portas do convento e os aldeões correram a guardar os seus animais e a esconder a família dentro das casas à aproximação da morte. Frei Hian pediu-me para o acompanhar e colocamo-nos de vigia dentro da casa onde havíamos assistido à morte do dragão dourado. Por uma fresta da mesma janela, examinamos o exterior. A aproximação dos dragões não tardou, primeiro, o recorte da sua sombra sobre os telhados de colmo das casas enquanto esvoaçavam sobre a aldeia e depois o som sinistro das garras das patas a tomar contacto com o chão de pedra quando eles começaram a pousar. Eu e Frei Hian entreolhamo-nos, desalentados. Os dragões que tinham chegado não eram de cor vermelha nem dourada, as suas couraças e hastes na coroa da cabeça eram de um azul cerúleo, intenso como o de um lago límpido das montanhas.
- Será que este pesadelo nunca mais vai acabar? – proferi, colocando em palavras o que nos ia na alma aos dois.
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