Procastinação [curta]


Enésimo enxaguou a esfregona no balde a admirar um pouco aparvalhado a forma como o líquido avermelhado escorria para o fundo do balde. Vermelho como sangue. Sangue como o que coloria o chão de mármore em quase toda a extensão do adorável quartinho de criança.

- Temos de fazer alguma coisa - opinou desalentado, a tentar obter uma reação da mulher - eu sei que ela é tua mãe mas temos mesmo de fazer alguma coisa.

Undécima, a mulher, sacudiu os ombros como se aligeirasse o peso daquelas palavras sobre si.

- Tenta perceber, poxa! É minha mãe e já dobrou a casa dos oitenta. Quando eu era pequena ela aguentava toda a pancada que o meu pai lhe dava só para lhe sonegar algumas moedas para nos comprar comida quando ela própria parecia um saco de ossos, a pele da cara colada ao crânio e uns dedos tão magros que pareciam caudas de ratinhos como naquela história de crianças.

Enésimo parou de esfregar o chão. Agora que ela começara a falar, sentir-se-ia ofendida se não lhe desse atenção.

- Anos mais tarde, quando o Narciso me emprenhou, ela foi a casa dele exigir responsabilidades, armada com uma machada da lenha e um sovelão bicudo de matar porcos e fez algo de semelhante quando engravidei do Vicente, do Asdrúbal e do Parsifal. E perguntava-me sempre primeiro se ia guardar a criança ou se queria que ela ma tirasse do ventre com uma lâmina. Devo-lhe tudo, percebes? E os meus filhos também, foi com o dinheiro dos pais deles que eu os criei, pus-lhes o pão na boca e os livros na mochila, foi ainda o dinheiro deles que eu empreguei quando começaram a querer tabaco, bebidas ou ir à casa das meninas.

«Acho que vou esperar umas horas para falar com ela, ou uns dias, ela está mal mas nós também nunca estivemos sempre bem, somos uma família desiquilibrada de meter pavor. Vou primeiro fazer um chá e dar-lhe um toque de aguardente para me animar».

- Não podes esperar horas nem dias - voltou Enésimo - agora é o momento certo para ires falar com ela.

Ela deteve-se quando já se encaminhava para a cozinha. As palavras de Enésimo rasgaram um abismo diante dos seus passos. A angústia invadiu-a como uma inexorável vontade de vomitar.

- Posso só beber um chá?

- Não, Undécima! Esse chá vai levar horas, primeiro porque vai estar muito quente, depois porque achas que a nossa aguardente não te sabe bem e tens de comprar outra e depois de voltares da loja sabes que tens de aquecer novamente água para fazer outro chá. Digo-te isto pela milésima vez - não faças mais rodeios e vai falar com a tua mãe!

- Posso só... - começou ela e a sua evasiva chocou de frente com o olhar severo do marido. Recuou um pouco e recomeçou.

- ... posso só esperar que ela pouse por fim o facalhão sujo de sangue?


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