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XX - VINTE anos

  Em 2006, há quase vinte anos, foi a minha primeira experiência no Blogger, já não era um neófito, começara antes com outro blogue em outra plataforma, o Myspace, onde se trabalhava imenso para fazer coisas que depois nos eram oferecidas, trabalhava-se com html para configurar o aspeto e as pequenas surpresas de cada publicação, cheguei a experimentar publicar um texto com o fundo em amarelo (horrível) ou as letras em roxo e verde, só para me congratular intimamente por ter conseguido chegar a esses resultados parvos com o meu uso do código do blogue. No Blogger tudo era mais fácil, intuitivo, como eles diziam, ou facilitivo de tão pouco desafiante que se tornara, era só escrever e publicar, quando notávamos imperfeições (e eram muitas), voltava-se atrás, corrigia-se, e o bebé trôpego e disforme voltava a sair do ventre da mãe com uma deficiência a menos, menos horroroso ao olhar sensível e traumatizado dos transeuntes. Em 2006, os blogues ainda tinham as velas enfunadas, parecia ...
  No dia em que o confinamento acabou, as pessoas saíram de casa. Mas não estavam livres. Tinham sacrificado essa liberdade à experiência insólita e avassaladora de se sentirem sós, aprisionados e engavetados. A partir de então, a liberdade tomou-se a sorvos, breves e episódicos. Sair para voltar, experimentar a embriaguez da vastidão para logo se regressar à casa de porta trancada, ao quarto diminuído por um roupeiro oblíquo atravessado no espaço, à sala de persianas corridas onde as pupilas espreitam a medo o pequeno varandim deserto e os varandins e varandas de outras casas e prédios onde outras pessoas diminuídas também espreitam, perscrutam e interrogam com medo, pavor autêntico, que alguém lhes responda. Quando as pessoas saíram de casa, o mundo exterior fora-lhes roubado, não lhes pertencia.

O cântico em jeito de anedota (ou o contrário)

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O nosso personagem de empréstimo possuía um singular nome próprio - era singular mas era dele, como qualquer coisa comprada ou herdada - e esse nome era Borsday, um nome com uma sonoridade eslava ou germânica e com a terminação musical do nome de um súbdito de Sua Majestade a passear até ao farol com Virginia Woolf sob um chapéu de sol. Borsday mantinha há longos anos uma relação tranquila com uma jovem da sua circunscrição e um dia marcaram data para o casamento. Acordaram que ambos escreveriam um texto seu para lerem um ao outro diante da família e dos convidados. A noiva alinhavou o dela a partir de frases de diálogos de filmes melosos da Hallmark que ela via e revia em plataformas de streaming, Borsday não lhe ficou atrás e a composição dele era uma fusão caótica de versos que se lembrava de músicas tradicionais escocesas onde se cantava as mulheres peitudas de coxas gordas e a cerveja dos pubs cheios de fumo de tabaco. No dia da cerimónia e diante da mesa da consagração, a noiva q...

Natal [história escrita a 2 mãos com a MARIA DOS ANJOS CASTANHEIRA CALADO]

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Ainda a tarde se delongava nas últimas e deliciadas horas de claridade de Dezembro quando o jovem pároco ouviu bater à sua porta. Pousou o candeeiro de petróleo que estava prestes a acender e apressou-se a abri-la. No degrau de calcário da entrada estavam dois paroquianos seus, de olhar grave e mãos de dedos entrelaçados sobre as barrigas salientes. Eram os Antunes da Teresa, dois irmãos, acólitos e juízes de festa, tacticamente complicados a abordar qualquer assunto relativo à paróquia ou aos paroquianos. - Hoje é noite de Natal, senhor nosso padre - começou o mais novo com uma voz monocórdica - é tradição e tradição de respeito e reverência que o senhor padre jante connosco no salão da coletividade, temos anho, galinha e peru, bolos feitos com muitos ovos e brindeiras da senhora Dona Helena da Serra. Pode o senhor nosso padre não o desejar, mas terá de o explicar porque o recusa quando der a Santa Missa. O Padre Vicente suspirou de forma discreta e foi vestir um casaco felpudo ...

Procastinação [curta]

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Enésimo enxaguou a esfregona no balde a admirar um pouco aparvalhado a forma como o líquido avermelhado escorria para o fundo do balde. Vermelho como sangue. Sangue como o que coloria o chão de mármore em quase toda a extensão do adorável quartinho de criança. - Temos de fazer alguma coisa - opinou desalentado, a tentar obter uma reação da mulher - eu sei que ela é tua mãe mas temos mesmo de fazer alguma coisa. Undécima, a mulher, sacudiu os ombros como se aligeirasse o peso daquelas palavras sobre si. - Tenta perceber, poxa! É minha mãe e já dobrou a casa dos oitenta. Quando eu era pequena ela aguentava toda a pancada que o meu pai lhe dava só para lhe sonegar algumas moedas para nos comprar comida quando ela própria parecia um saco de ossos, a pele da cara colada ao crânio e uns dedos tão magros que pareciam caudas de ratinhos como naquela história de crianças. Enésimo parou de esfregar o chão. Agora que ela começara a falar, sentir-se-ia ofendida se não lhe desse atenção. - Anos mai...

A consulente

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                A senhora moveu-se nervosamente na cadeira, estava irrequieta e mais a cada instante enquanto do outro lado da secretária o médico relia uma e outra vez as folhas com os seus exames que retirara de um envelope selado do laboratório. Ela levantou a mão direita e ajeitou sobre os ombros o casaco comprido que trazia sobre as costas.                 - Estou mal, Doutor? Há algum problema comigo?                 Ele fitou-o com uma encenada surpresa como se ela tivesse dito uma coisa absurda mas, ao mesmo tempo, talvez sentisse um pouco de alívio por ela ter iniciado o diálogo, o caminho que os dois teriam de percorrer a par.                 - As coisas não estão famosas e vo...

Croniqueta sobre os dragões malignos da ilhota de Eigg Galmisdale

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  Frei Geovildo, prelado-mor do nosso Mosteiro do Santo Lenho, encarregou-me a mim, monge-copista da livraria do Mosteiro, de anotar tudo o que presenciei desde os primeiros sinais de dragões no nosso recanto da Hibernia. Ainda antes de os vermos pela primeira vez, os barqueiros e os pescadores contaram que os dragões já haviam causado a destruição na costa diante da nossa ilha e apenas um ténue estreito sem rochedos nem ventos indómitos nos separavam desses lugares ora devastados. Em Kilchoan, os dragões entraram nas casas das pessoas, destruindo e matando quem queriam, os seus hálitos pestilentos insinuavam-se pelas narinas e boca dos campesinos, que sucumbiam à dor enquanto os seus órgãos eram calcinados por aquele sopro maligno; em Glenuig e Mallaig, os dragões não quiseram saber das pessoas, mas incendiaram os seus celeiros de cereais secos, devoraram os frutos nas árvores, e destruíram a carne conservada em gelo nos subterrâneos em pedra das suas granjas. Quando os avista...