No dia em que o confinamento acabou, as pessoas saíram de casa. Mas não estavam livres. Tinham sacrificado essa liberdade à experiência insólita e avassaladora de se sentirem sós, aprisionados e engavetados. A partir de então, a liberdade tomou-se a sorvos, breves e episódicos. Sair para voltar, experimentar a embriaguez da vastidão para logo se regressar à casa de porta trancada, ao quarto diminuído por um roupeiro oblíquo atravessado no espaço, à sala de persianas corridas onde as pupilas espreitam a medo o pequeno varandim deserto e os varandins e varandas de outras casas e prédios onde outras pessoas diminuídas também espreitam, perscrutam e interrogam com medo, pavor autêntico, que alguém lhes responda.

Quando as pessoas saíram de casa, o mundo exterior fora-lhes roubado, não lhes pertencia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

POLARIS (Para a Angela)

Quando a ampla vida se conta por um instante maior do que ela

XX - VINTE anos