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Croniqueta sobre os dragões malignos da ilhota de Eigg Galmisdale

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  Frei Geovildo, prelado-mor do nosso Mosteiro do Santo Lenho, encarregou-me a mim, monge-copista da livraria do Mosteiro, de anotar tudo o que presenciei desde os primeiros sinais de dragões no nosso recanto da Hibernia. Ainda antes de os vermos pela primeira vez, os barqueiros e os pescadores contaram que os dragões já haviam causado a destruição na costa diante da nossa ilha e apenas um ténue estreito sem rochedos nem ventos indómitos nos separavam desses lugares ora devastados. Em Kilchoan, os dragões entraram nas casas das pessoas, destruindo e matando quem queriam, os seus hálitos pestilentos insinuavam-se pelas narinas e boca dos campesinos, que sucumbiam à dor enquanto os seus órgãos eram calcinados por aquele sopro maligno; em Glenuig e Mallaig, os dragões não quiseram saber das pessoas, mas incendiaram os seus celeiros de cereais secos, devoraram os frutos nas árvores, e destruíram a carne conservada em gelo nos subterrâneos em pedra das suas granjas. Quando os avista...

Quando a ampla vida se conta por um instante maior do que ela

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  Isilda era como um pequeno anjo de luz. Eu e ela devíamos ter na época uns onze ou doze anos, ela era linda e na confusão de sentimentos inclassificáveis que nos assolam por esses anos turbulentos, sei que gostava mais dela do que de qualquer outra coisa de que me possa lembrar, como era perfeita a tez escura da sua pele, o seu sorriso vivo e o risinho nervoso e musical, e os seus olhos castanhos esverdeados que me adoçavam a alma quando eu os fixava. Bate frágil o coração dos novos como a da cria do pássaro na berma do ninho antes do seu primeiro voo, o coração bate no peito e na garganta, enche de ar as nossas palavras aladas e metamorfoseia um simples gesto num rito sagrado e denso de significado. Na ida ou no regresso da escola, por vezes enchia-me de coragem e sentava-me ao seu lado no autocarro cheio de gente e de cheiros e sons mesclados, fortuitamente dizíamos qualquer coisa um ao outro, outras vezes fazíamos a viagem a olhar para o exterior, para a paisagem africana de a...

Efeito borboleteante

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Quando nasceu, Edgar não chorou como muitas outras crianças. A parteira pegou-lhe pelas pernas e deu-lhe uma palmadas ligeiras no rabo, mas Edgar (ele ainda não tinha nome por então) não chorou, apenas moveu ligeiramente a cabeça pequenita como a manifestar que havia algo que não estava correcto. Limparam-no e aninharam-no no colo da mãe, mas Edgar não chorou nem sentiu nada, sentia-se distante do mundo e das pessoas, da voz e dos beijos da mãe emocionada, do bafo do pai a tabaco e a vinho rasca que lhe queimava a cara quando ele lhe falava junto a si. Os anos passaram e Edgar permaneceu uma criança séria e sisuda como um juiz sóbrio e velho. Não havia lugar para o riso ou para o pranto na sua alma e cresceu sério como se tudo fosse sério e inadiável e tivesse uma função imediata que não poderia ser esquecida. Se uma borboleta esvoaçasse sobre a sua cabeça, não era porque voasse por alegria ou prazer mas porque procurava comida ou porque fugia de quem a queria comer, não havia nada cas...

A senhora e o viúvo

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  A senhora Os corvos marinhos mantêm-se pousados nas rochas quando o mau tempo se avizinha. Isso era algo que Nazino sabia desde criança. Admirou aquelas criaturas de bicos fortes, firmemente ancorados nas rochas altas e com passos leves levou para dentro do estábulo o seu burro e fechou a grande porta de tábuas que construíra com madeiras salvadas das praias. Antes de entrar em casa, fechou por fora as portadas de madeira, colocando de viés as trancas que as impediriam de bater com o vento e refugiou-se na casa. Alimentou o fogo no forno de lenha onde num tacho de paredes enegrecidas cozia o peixe que pescara, acompanhado por umas batatas que lhe dera o senhor Grimaldo da Venda, por estarem todas greladas. Sentou-se ao pé a fumar o seu cachimbo enquanto a tempestade rolava sobre a casa, fazendo estremecer as paredes e o telhado de tábuas, por vezes conseguia ouvir o burro a zoar na divisão contígua, mas não se alarmava porque era um animal muito medroso que se assustava com tud...

POLARIS (Para a Angela)

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  “Como é que se começa uma história?” – perguntou-lhe o neto, falando consigo mesmo diante da folha lívida e inane pousada na mesa. A avó saiu da mesa, tentando não perturbar a sua concentração, de caminho, pegou pela asa da caneca vazia de café de tacho e rumou à cozinha deixando no ar o rasto sinuoso daquele aroma persistente e encorpado de café em pó e artes do fogo. Pousou a caneca no lava-louça, deu uma espreitadela à sala de jantar onde o neto tinha a cabeça pousada entre as duas mãos abertas, e saiu discretamente de casa, transportando com ela um pouco de pão e umas aparas do peito de peru que assara para o jantar. Sentou-se na berma do alpendre, junto aos degraus de madeira da escada, e pousou num dos degraus a comida que trouxera. Não teve de esperar muito, admirou os arbustos a ramejar diante de si a trair a presença que se avizinhava, até a ver, a ursa esguia de pêlo luzidio e focinho um pouco alongado. A ursa aproximou-se mansamente, olhando-a a espaços como se estives...