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A mostrar mensagens de janeiro, 2022

Croniqueta sobre os dragões malignos da ilhota de Eigg Galmisdale

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  Frei Geovildo, prelado-mor do nosso Mosteiro do Santo Lenho, encarregou-me a mim, monge-copista da livraria do Mosteiro, de anotar tudo o que presenciei desde os primeiros sinais de dragões no nosso recanto da Hibernia. Ainda antes de os vermos pela primeira vez, os barqueiros e os pescadores contaram que os dragões já haviam causado a destruição na costa diante da nossa ilha e apenas um ténue estreito sem rochedos nem ventos indómitos nos separavam desses lugares ora devastados. Em Kilchoan, os dragões entraram nas casas das pessoas, destruindo e matando quem queriam, os seus hálitos pestilentos insinuavam-se pelas narinas e boca dos campesinos, que sucumbiam à dor enquanto os seus órgãos eram calcinados por aquele sopro maligno; em Glenuig e Mallaig, os dragões não quiseram saber das pessoas, mas incendiaram os seus celeiros de cereais secos, devoraram os frutos nas árvores, e destruíram a carne conservada em gelo nos subterrâneos em pedra das suas granjas. Quando os avista...

Quando a ampla vida se conta por um instante maior do que ela

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  Isilda era como um pequeno anjo de luz. Eu e ela devíamos ter na época uns onze ou doze anos, ela era linda e na confusão de sentimentos inclassificáveis que nos assolam por esses anos turbulentos, sei que gostava mais dela do que de qualquer outra coisa de que me possa lembrar, como era perfeita a tez escura da sua pele, o seu sorriso vivo e o risinho nervoso e musical, e os seus olhos castanhos esverdeados que me adoçavam a alma quando eu os fixava. Bate frágil o coração dos novos como a da cria do pássaro na berma do ninho antes do seu primeiro voo, o coração bate no peito e na garganta, enche de ar as nossas palavras aladas e metamorfoseia um simples gesto num rito sagrado e denso de significado. Na ida ou no regresso da escola, por vezes enchia-me de coragem e sentava-me ao seu lado no autocarro cheio de gente e de cheiros e sons mesclados, fortuitamente dizíamos qualquer coisa um ao outro, outras vezes fazíamos a viagem a olhar para o exterior, para a paisagem africana de a...

Efeito borboleteante

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Quando nasceu, Edgar não chorou como muitas outras crianças. A parteira pegou-lhe pelas pernas e deu-lhe uma palmadas ligeiras no rabo, mas Edgar (ele ainda não tinha nome por então) não chorou, apenas moveu ligeiramente a cabeça pequenita como a manifestar que havia algo que não estava correcto. Limparam-no e aninharam-no no colo da mãe, mas Edgar não chorou nem sentiu nada, sentia-se distante do mundo e das pessoas, da voz e dos beijos da mãe emocionada, do bafo do pai a tabaco e a vinho rasca que lhe queimava a cara quando ele lhe falava junto a si. Os anos passaram e Edgar permaneceu uma criança séria e sisuda como um juiz sóbrio e velho. Não havia lugar para o riso ou para o pranto na sua alma e cresceu sério como se tudo fosse sério e inadiável e tivesse uma função imediata que não poderia ser esquecida. Se uma borboleta esvoaçasse sobre a sua cabeça, não era porque voasse por alegria ou prazer mas porque procurava comida ou porque fugia de quem a queria comer, não havia nada cas...